11/08/2021 às 00h00min - Atualizada em 11/08/2021 às 00h00min

Professora da UFSC destaca principais aspectos revelados em novo relatório internacional sobre mudanças climáticas

Da Redação
Divulgação
O novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês: Intergovernmental Panel on Climate Change – acaba de ser divulgado, evidenciando a relação entre o aquecimento global e eventos catastróficos que têm se mostrado cada vez mais constantes: extremos de calor e de frio, queimadas devastadoras, longos e intensos períodos de seca, chuvas e enchentes torrenciais.

As mudanças climáticas estão entre os maiores problemas que enfrentamos na atualidade. Para solucioná-lo, são necessárias ações coordenadas entre países de todo o mundo. A compreensão de que ações locais podem gerar consequências – positivas ou negativas – em escala planetária, motivou a criação de uma organização científica de caráter intergovernamental.O IPCC foi fundado em 1988, a partir de uma iniciativa conjunta da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Seu objetivo é fornecer avaliações consistentes, baseada nas pesquisas científicas mais recentes, sobre as mudanças climáticas e seus desdobramentos. O órgão está estruturado em três grupos de trabalho distintos, responsáveis por publicar periodicamente relatórios científicos que fazem uma radiografia do presente e projetam cenários futuros. O relatório que acaba de ser lançado foi produzido pelo Grupo I. Os próximos relatórios, que vêm sendo elaborados pelos demais grupos, serão divulgados em 2022. 

A professora e pesquisadora Regina R. Rodrigues, do curso de Oceanografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), relata, na entrevista a seguir, quais os aspectos mais relevantes e preocupantes apontados neste novo relatório. A docente tem como principal área de atuação o papel da circulação oceânica de larga escala no clima. É coordenadora da Subrede Desastres Naturais da Rede CLIMA e editora associada da revista do grupo Nature Communications Earth & Environmental. Rodrigues já foi editora revisora do IPCC-Special Report on Climate Change and Land (SRCCL) e atualmente está como pesquisadora visitante na Universidade de Oxford, na Inglaterra, atuando no departamento Atmospheric, Oceanic and Planetary Physics.

Abaixo, a entrevista completa especialista, produzida pela equipe de comunicação da UFSC.

Você poderia explicar o que seria o “Climate Change 2021: The Physical Science Basis”?

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) é formado por cientistas que se reúnem a cada cinco anos aproximadamente para fazer um levantamento e avaliação de todos os resultados científicos disponíveis sobre as mudanças climáticas. Eles se dividem em três Grupos de Trabalho. O primeiro é responsável por elaborar o Relatório sobre a Base Física das Ciências relacionadas ao clima. Isto é: todas as pesquisas e evidências físicas das mudanças climáticas. Quando dizemos “físicas” nos referimos aos aspectos biológicos, químicos e todos os outros que envolvem o sistema climático. Esse relatório que acaba de sair é o resultado do trabalho desse primeiro grupo. 

O segundo grupo avalia o impacto das mudanças climáticas nos ecossistemas, na biodiversidade, nas sociedades, culturas, e povos. E o terceiro analisa as respostas de mitigação, isto é, as medidas que vêm sendo tomadas para a redução de emissões e aumento de retirada dos gases do efeito estufa do sistema terrestre.

Quais são as principais conclusões desse relatório? 

Eu diria que as notícias são ruins. O relatório mostra que a Terra está mais quente do que esteve nos últimos 125 mil anos. Nós estamos vendo uma aceleração na taxa de aquecimento global nunca vistos nos últimos 2 mil anos. Isso significa que a velocidade com que o aquecimento está ocorrendo é maior hoje do que o que já foi registrado ao longo dos dois milênios anteriores.

Os eventos extremos que estamos vendo agora (ondas de calor, chuvas torrenciais, secas) estão ficando mais intensos e mais frequentes. Nesse relatório, em particular, a ciência conseguiu relacionar esses extremos ao aumento das emissões dos gases do efeito estufa. A previsão é de que a Terra irá aquecer até metade deste século, independentemente do caminho que escolhermos (de baixa ou alta emissão). Mesmo que a temperatura não ultrapasse o aumento de 1,5 ºC, que foi estabelecido pelo Acordo de Paris, essas situações extremas serão mais intensas e constantes. Alguns desses efeitos serão ainda mais duradouros, como o aumento do nível do mar e o desgelo dos solos congelados da Sibéria. E se o aquecimento global chegar aos 2 ºC, os extremos de calor serão ainda mais frequentes e críticos, com consequências drásticas para a agricultura e a saúde, por exemplo.

Quais seus pontos mais preocupantes?

O relatório mostrou que ainda corremos o risco de enfrentar mudanças abruptas, caso ocorra o colapso das geleiras na Antártica, o colapso da floresta Amazônica, o colapso do sistema global de correntes oceânicas.

Espera-se que o aumento da temperatura global atinja 1,5 ºC já no começo dos anos 2030 – ou seja, daqui a apenas 10 anos. O único caminho que não prevê isso, entre os cinco apontados no documento, já não é mais viável: zerarmos as emissões agora.

O relatório apontou que a influência humana no aquecimento do planeta é inequívoca e inquestionável. Isso seria uma novidade? Relatórios anteriores já não indicavam o mesmo?

Relatórios anteriores já apontavam para isso. Mas, nos últimos 5 anos, a ciência na área de atribuição (atribuir as causas das mudanças climáticas às atividades humanas ou processos naturais do sistema) deu um salto. O que mudou é que, hoje, como aponta o relatório, as evidências científicas mostram que atividades humanas são inequivocamente responsáveis por essas mudanças climáticas que estamos vivenciando. Quais seriam essas novas evidências? Hoje temos novas observações e novas descobertas teóricas do funcionamento do sistema climático terrestre (sensibilidade climática), temos melhores modelos climáticos e melhores métodos de inteligência artificial. Essas novas tecnologias têm permitido elaborarmos modelos computacionais em maior escala e estudarmos períodos passados do clima do planeta (paleoclima). Tudo isso contribuiu para que tenhamos agora projeções futuras mais robustas e confiáveis.

Em relação aos oceanos, que é sua área de pesquisa, o que a análise dos dados mais recentes verificou?

Os oceanos também sofrerão uma constância cada vez maior de situações extremas, principalmente relativas ao aumento na intensidade e frequência de ondas de calor marinhas, à desoxigenação e acidificação dos oceanos. Todos esses efeitos combinados serão catastróficos para os ecossistemas marinhos. O aumento do nível do mar também trará consequências graves para as regiões costeiras.

O que o relatório diz, especificamente, sobre o Brasil?

Pela primeira vez, o relatório do IPCC fornece uma avaliação regional mais detalhada das mudanças climáticas, destacando informações que poderão ser muito úteis para subsidiar avaliações de risco regional, adaptações e tomadas de decisão. Esses dados regionais foram apresentados em um atlas interativo on-line, e também em fichas técnicas e informativas. O Atlas de Mudanças Climáticas, que integra o relatório, apresenta uma ficha técnica para a América do Sul. Nas projeções mais pessimistas, a temperatura média pode aumentar 7º C. A precipitação anual vai diminuir em todo território nacional, exceto no extremo sul do continente. Por outro lado, as chuvas torrenciais – grandes volumes em curto espaço de tempo – vão aumentar e os períodos de estiagem vão ficar cada vez mais longos. Esse cenário é péssimo para a agricultura. 

Também teremos aqui um aumento do nível do mar maior do que a média global, o que terá por consequência grandes inundações em regiões costeiras, retração das linhas litorâneas e uma frequência maior de ondas de calor marinhas.

E sobre a floresta Amazônica?

A floresta Amazônica é um dos sistemas da Terra que pode sofrer uma mudança abrupta. Se ela for desmatada além de uma certa porcentagem de sua área total, toda a floresta se desestabilizará, podendo se tornar uma savana (cerrado). Isso é o que chamamos de tipping point: quando um sistema se transforma a tal ponto que chega a um estado irreversível. Ainda não sabemos ao certo qual seria exatamente o tipping point da Amazônia. Mas as estimativas da ciência apontam que ele esteja localizado em um desmatamento entre 20% e 25% da área total. Já chegamos a 17% e nos últimos anos essa porcentagem tem aumentando muito rapidamente. 

O que tem ocorrido em Santa Catarina – como o ciclone bomba, períodos de seca e frio extremos, avanço do mar sobre casas etc. – tem relação com as mudanças climáticas?

Sim, está muito relacionado. O processo é mais ou menos o mesmo que ocorre no Hemisfério Norte (HN). Embora tenham menos estudos sobre o Hemisfério Sul (HS), a física envolvida é a mesma. Com o aumento da temperatura global, há um aumento das diferenças de temperatura entre a região tropical e a região polar, principalmente no HS. Essa diferença provoca tempestades mais intensas (como o ciclone bomba), ventos mais fortes e ressacas marítimas mais intensas (ondas mais altas). Frequentemente, esses eventos causam a erosão das praias e a retração da linha costeira. Esses fatores, aliados ao aumento do nível do mar, destruirão ainda mais nossa zona costeira.

Quais os principais riscos para o Brasil como um todo e para Santa Catarina em particular em relação às mudanças climáticas?

Enfrentaremos eventos extremos, sobretudo longos períodos de seca. As secas vão gerar vulnerabilidades, reduzindo nossa segurança hídrica, energética e alimentar. Veja o que está ocorrendo agora: os impactos da falta de chuvas já estão comprometendo o abastecimento de alimentos para a população, provocando crises na agricultura, na pecuária e na geração de energia.

E para Florianópolis especificamente? Quais os riscos para as populações que vivem em ilhas?

Florianópolis e Santa Catarina estão bem na transição da zona tropical para a subtropical. Essa é uma das regiões mais vulneráveis a esses eventos extremos. Ciclones extratropicais provocam tempestades cada vez mais fortes e ressacas que, com o aumento do nível do mar, já estão gerando erosões nas praias no sul da Ilha e retração da costa no norte da Ilha. Quanto custará aos cofres públicos aumentar a linha de praia? Quem garante que, na próxima ressaca, essa areia também não vai ser removida?

As secas já estão comprometendo nosso abastecimento de água. A Lagoa do Peri, no sul da Ilha, atingiu um nível baixíssimo. Não será mais possível depender somente do abastecimento da lagoa e dos rios no continente. Teremos que construir reservatórios. Quando os governos e a população acordarem para as mudanças climáticas será tarde. Já deveríamos estar preparados para essa situação. Mas ainda não estamos. 

Os governos locais, estaduais e nacional estão respondendo com eficiência à gravidade da situação que enfrentamos?

Não, não respondem. Aqui no Brasil existe uma resistência muito grande a aceitar que as mudanças climáticas estão acontecendo. A população não exige isso dos governos porque existe um grau de conhecimento muito baixo sobre o assunto. Ficamos muito vulneráveis aos lobbies econômicos da indústria de petróleo, que dissemina informações erradas dizendo que coibir a queima de combustíveis fósseis afetará a economia. Isso é uma grande mentira. 

Os custos para sociedade e governos com os desastres e extremos climáticos são muito maiores. Uma economia verde levaria a um aumento de empregos. Poderíamos estar à frente, desenvolvendo tecnologias que ajudam a combater essas mudanças. Mas, infelizmente, enquanto o governo e setores da economia negam as mudanças climáticas, ficamos para trás. Estamos perdendo uma ótima oportunidade de o Brasil se tornar um exemplo, um exportador de tecnologia, um líder global. Mas, nesse aspecto, estamos sempre atrás. Nós nos limitamos a copiar os países desenvolvidos e importar tecnologias caras, perdendo a chance de gerar muitos empregos aqui.

Qual a importância das políticas governamentais nas mudanças climáticas?

São muito importantes. Não há como coibir as mudanças climáticas com ações individuais. Precisamos de mudanças estruturais profundas no nosso sistema econômico. Por exemplo: em Florianópolis, o que poderia proteger nossas praias desses eventos extremos? Manter, preservar a linha de dunas e as vegetações naturais da praia. Para isso, não podemos mais seguir construindo nessas áreas. Se a legislação permitir construir e as pessoas continuarem comprando propriedades nessas áreas, não resolveremos o problema. Os manguezais também são importantíssimos para proteger a cidade de marés e ondas, mas não existe atualmente um esforço legítimo para preservá-los.

As atitudes individuais também têm relevância?

Sim, mas sem as políticas públicas não conseguiremos avançar na solução desses problemas. A atitude individual mais importante que podemos ter, portanto, é votar em políticos que tenham consciência sobre tudo isso e ofereçam propostas concretas para evitar um cenário trágico. 

Também podemos diminuir o consumismo. Aprendemos, durante a pandemia, que não precisamos comprar tantas coisas. Fast fashion, fast food e produtos de grandes conglomerados são péssimos para o meio ambiente, envolvem emissões de grandes quantidades de carbono e são produzidos de uma forma não sustentável. Além, é claro, de centralizar riquezas. Hoje sabemos que as principais ações para reduzir as mudanças climáticas estão diretamente atreladas ao combate à pobreza e à redução das desigualdades sociais. Em outras palavras: justiça climática e justiça social andam juntas.
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